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Pushing the conversation on gender equality.

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A delícia de ser uma mãe agilista ❤

Foto de Bruno Nascimento no Unsplash

Existe algo muito estranho que eu descobri após ser mãe: somos consumidas por um aumento significativo de tarefas em TODOS os aspectos da nossa vida pessoal. Este fenômeno só acontece após ter filho e provavelmente deve permanecer até eles se casarem. E não estou falando só em dinheiro. Estou falando de TUDO mesmo… nosso corpo, nosso relacionamento, nosso sono, nossa alimentação… enfim, é só você escolher algum aspecto da vida e aplicar o conceito, mas pra mim o mais afetado por esse aumento de demanda foi o meu tempo. Tempo esse que eu antes dedicava às tarefas que eu mais gostava fazer.

Eu não consigo entender como as mães arrumam tempo para fazer tudo. Minha filha nem sempre está disposta a dividir o meu tempo comigo e com aquilo que eu quero fazer para mim. Todos sabemos que por um longo período, nossa vida passa a ser controlada por esses pequenos seres cheios de vontade. Por exemplo, antes de ter filho eu já sabia que ir ao supermercado era como fazer uma viagem longa e cansativa, mas no final eu podia sair de lá com muito chocolate, pipoca e vinho. Agora está HORRÍVEL, gasto mais da metade do meu tempo correndo atrás de criança, evitando que ela se jogue ou que abra as embalagens para comer, isso quando não tenho que subornar a bandida com pão francês para evitar que ela fique gritando e disparando pelos corredores. Pior ainda: agora saio de lá com frutas, fraldas, quinoa e arroz integral. É a verdadeira definição de CAOS, que muito me lembra os projetos cascata em que trabalhei nos últimos anos (a diferença é que, mesmo no caos do supermercado, consigo sair de lá com um resultado). A maternidade me fez aprender a aceitar que algumas coisas não fariam mais parte do meu dia a dia e que tudo bem ser assim.

Tenho muitas outras coisas para fazer, além de me preocupar constantemente com essa restrição de tempo. Tenho um marido que demorou um pouco pra engrenar nessa nova vida que nos foi apresentada, mas que agora desempenha muito bem seu papel de pai, marido e amigo e compartilha comigo todas as responsabilidades na criação da nossa filha. No entanto, tenho um monte de pequenas coisinhas que preciso fazer e sei que ele não vai, como por exemplo aquela gaveta ‘porta treco’ que está me olhando aqui. São 23h e tem uma gaveta me olhando e eu juro que se enfiar mais alguma coisa naquela gaveta, vai rolar uma revolução lá dentro e eu vou acordar achando que virei protagonista de um filme onde tudo ganha vida e vem me atacar. Sério, tenho que parar de empurrar coisas para dentro daquela gaveta da cômoda. Agora imagina o fenômeno da inflação de novas tarefas da vida de mãe, somados com esse monte de coisinhas que acontece no nosso dia a dia em casa e no trabalho? Ladeira abaixo.

Felizmente, num momento de lucidez, lembrei que era muito importante mudar o rumo dessa prosa e tomar as rédeas do meu tempo e da minha vida. Um belo dia pensei

~vou aplicar o ágil na minha vida, fora do ambiente de TI~

Explicando, rapidamente, podemos imaginar que pegamos um grande projeto e dividimos em pequeninas partes que contêm uma série de ações, que precisam ser realizadas em prazos curtos de tempo chamados de sprints, que nada mais é do que um pequeno intervalo de tempo para se resolver o problema proposto. UFA! Cada sprint tem um ou vários objetivos, e cada um pode ou não complementar aquilo que foi feito numa sprint anterior. Esse fluxo segue, um belo dia você acorda e BUM, o topo da sua lista de prioridades e tarefas está feito, e você começa a se orgulhar daquilo que construiu até ali. O mais desafiador disso tudo ~e também aquilo que muda a sua vida e faz você se apaixonar~ é reconhecer que progredir, mesmo que num ritmo novo e diferente AINDA significa progredir.

Eu sei que essa forma nova de pensar e agir não funciona para todas as mães, mas me tornar uma mãe agilista transformou a minha vida. Passei a encarar os tempos da nova experiência enquanto mãe como sprints. Por exemplo, durante as horas do cochilo da minha filha nas tardes do fim de semana, uso esse tempo para ler sobre novas técnicas de métricas ágeis. Nos dez minutos que ela fica desenhando na mesa da sala, consigo ler um e-mail. Durante os cinco minutos que ela passa correndo atrás dos cachorros, consigo cortar uma cebola e secar as lágrimas na blusa. Enquanto ela dorme com o pai, consigo terminar minhas provas do MBA. Eu sei muito bem que uma sprint precisa de cadência e que existem ritos a serem considerados, mas aqui.. na vida real, na vida de mãe, vamos nos adaptando (aháááááá, olha o ágil de novo aqui) e evoluindo. O principal é que no fim da semana, me transformar em uma mãe agilista significa fazer um monte de coisas que eu não faria antes de começar a aproveitar esses intervalos de tempo.

Confesso que nem sempre uso esses momentos como sprints, ainda preciso evoluir um pouco, até porque às vezes tudo que eu preciso é apenas beber um vinho, relaxar e viver. No mundo caótico em que vivo, conciliar a vida com filhos, trabalho, estudos e família, me lembra o quanto é bom sentar e saborear uma boa xícara de café e respirar. Sabe o que é melhor disso tudo? Eu não preciso correr para arrumar a gaveta da cômoda, pois já tenho uma sprint planejada para isso.

Esse texto é dedicado a minha filha Amélia, que me impulsiona a lutar ainda mais pelos nossos direitos.

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