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Pushing the conversation on gender equality.

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Como agi quando um gestor do meu time assediou uma funcionária

E o que fazemos com as situações que acontecem bem na nossa frente?

Esperar que a situação se resolva sozinha é aceitar o desastre que pode vir depois.

Essa é uma história real, que vivenciei numa das empresas em que trabalhei. Vi outros episódios parecidos e que geraram o mesmo tipo de alerta: a necessidade de todo homem se posicionar ao ver uma atitude de assédio contra uma mulher.

A história

Certa vez, recebi de uma pessoa da minha equipe a informação, mais em tom de desabafo que de denúncia ou reclamação, de que um colega estava assediando uma funcionária.

O colega em questão tinha uma posição de ascendência hierárquica em relação a ela.

O colega em questão tinha o dobro da idade dela.

O colega em questão era um babaca.

O colega em questão acreditava que o fato de ser homem lhe dava o direito de colocar sua visão e sua vontade acima de qualquer coisa. Empatia não fazia parte do rol de atitudes dele e mesmo que, na minha visão, ele não tivesse ideia do tamanho e do potencial destrutivo que esse tipo de conduta costuma ter, isso não o tornava menos errado.

O assédio em questão era de caráter sexual. Daquele tipo de que normalmente recebe defesas como:

é apenas desejo: "mas eu só estou querendo conhecê-la melhor",

admiração: "mas ela é linda",

interesse: "quero sair com ela",

ou algo parecido (preencha esse campo com qualquer frase que signifique, no fundo, "eu quero e pronto").

Até onde me ocorre, para que se efetive cada uma dessas coisas, é preciso consenso. Mas como falar em consenso quando só um dos lados se vê com autoridade e poder para fazer valer sua vontade e a outra parte, bom… que outra parte?

Assim que soube que esses eventos estavam acontecendo, imediatamente pedi para a funcionária que me trouxe a questão um resumo do que estava acontecendo, do que já tinha acontecido e, principalmente, como estava a pessoa que vinha sendo assediada. Queria saber o que ela já tinha feito, se já havia levado a questão para o RH ou para algum outro gestor.

Logo percebi que eu era o outro gestor.

O dilema da funcionária que me trouxe a questão naquele momento era se ela devia ou não levar o assunto ao conhecimento do RH. Ela estava com a sensação de que não era uma boa ideia por que a probabilidade era que não desse em nada, que a funcionária que estava sendo assediada poderia ainda levar a culpa, que poderia haver o questionamento de ser apenas um mal-entendido, ou qualquer outra coisa que colocasse panos quentes ao invés de expor e abrir discussão e evitar que aquilo acontecesse de novo.

Levante a mão quem já viu isso antes.

"Tudo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre poder".

(Oscar Wilde)

Sempre achei a lógica por trás desse comportamento algo estranho nos círculos que frequentei ao longo do tempo. Nunca fez sentido pra mim. Ora, se há desejo, admiração ou interesse, deveria haver também para isso a mesma empatia, respeito e até uma boa dose de devoção, eu diria.

Mas não é assim que a coisa funciona. Quando o assunto é respeito, mulheres são tratadas de forma diametralmente oposta a como tratamos nossos “camaradas” (demais membros da mesma confraria masculina). É incoerente: a empatia e a consideração, espontâneos e naturais para um outro homem — mesmo que não seja alguém conhecido! — são impensáveis para com uma mulher.

Não é uma questão de lógica. É uma questão de poder.

É o mesmo mecanismo que faz um cara insistir em abordar uma mulher aparentemente sozinha numa balada, mesmo após ouvir recusas, e pedir desculpas quando descobre que ela está acompanhada por um outro cara. O ponto é que geralmente ele pede desculpas para o outro cara, não para a mulher. Isso é sensação de poder. Na visão do cara que estava dando a cantada, ela "é dele", logo é a ele que deve pedir desculpas.

Tá, mas e o que rolou com o tal cara do trabalho?

Independente dos fatores de vida, criação e socialização que podem ter causado esse comportamento no tal gestor, a despeito da forma como vemos as pessoas agirem quando se estabelece um ato de desrespeito como esse, ou mesmo da certeza que temos que esse cara receberia apoio dos “amigos” caso viesse a ser questionado ou confrontado por alguém que enxergasse abuso na atitude, o fato é que o seu direito deve terminar onde começa o do outro. Assédio é errado. Faltar com o respeito para com outra pessoa é errado. Colocar uma pessoa em uma situação desconfortável é errado. Saber que ela não se sente segura e mesmo assim insistir porque "não estou fazendo nada demais" é errado. E nada disso deveria ser passível de discussão.

Aí eu pergunto: qual a sua atitude se você vê uma pessoa nesta situação? O que você faz quando vê algo errado acontecendo? Como você se sente ao ver uma pessoa prejudicando outra? Se sua resposta para qualquer uma dessas perguntas for “nada”, sugiro que você pare, olhe pra dentro e reflita sobre quantas oportunidades de fazer diferença positiva para outra pessoa você está desperdiçando. Quanta coisa ruim continua acontecendo porque existem pessoas sofrendo com atos como esse, e que tem o sofrimento potencializado pela sensação de impotência e desamparo de não poder contar com as pessoas que estão ao redor? Quanta injustiça está rolando aí do seu lado e você, por medo, conveniência ou covardia, está permitindo que continue?

Ninguém merece ser isolado.

Depois de ter colhido as informações sobre o que vinha acontecendo, ouvi da funcionária que me trouxe a questão um pedido de conselho e ajuda sobre o melhor caminho a seguir para lidar com os assédios. Não é óbvio? Não há um melhor caminho, só havia um caminho.

Chamei o assediador para uma conversa educada e franca e, sob o olhar de Maquiavel, fiz o mal de uma vez só. Não, eu não demiti o tal gestor. Apenas disse para ele que eu sabia o que estava acontecendo, que era inaceitável e que aquilo acabava ali, naquele momento. Ele, previsivelmente, negou o assédio, disse que ela estava exagerando, que não era nada disso.

Reações como essa, que variam entre "era só brincadeira" e "ela é louca" são tão comuns que eu nem posso dizer que esperava diferente. Reagi com aquela expressão de "aham. sei…", e coloquei que, se ele não estava fazendo nada, eu certamente não receberia mais nenhuma informação sobre assédio vinda dele a partir daquele dia… Certo? Adicionalmente, disse que teria com a funcionária que ele vinha assediando uma outra conversa, onde deixaria ela ciente exatamente do que falei para ele. Eu queria que ele tivesse consciência de que ela tinha meu apoio e que ele seria vigiado.

Demissão imediata não ensinaria para ele a lição que ele precisava aprender, então optei pelo monitoramento. Foi a melhor atitude? (você pode, e deve, se perguntar; fazer esse exercício é importante para estimular a perspectiva). Talvez não tenha sido a melhor conceitualmente, mas dado o cenário em que estávamos e o contexto, olho para trás e vejo que foi uma decisão acertada.

Omissão é veneno.

Não se omita. Encontre uma forma de agir. E aja. Procure apoio, busque aliados, fale com o máximo de pessoas em quem você confiar para dividir esse tipo de situação e qualquer outro onde uma pessoa invada, ofenda, desrespeite ou desconforte uma outra. É difícil, não é um terreno plano nem limpo, mas não agir perpetua o problema. Apesar dessa história representar um evento de assédio contra uma mulher, agir é necessário perante qualquer tipo de abuso contra qualquer tipo de pessoa (não gosto da expressão “minoria”, mesmo entendendo e respeitando seu significado) em qualquer ambiente. Tem medo envolvido? Muito. Mas não deve ser sobre nós, deve ser sobre quem está numa posição em que existe a necessidade de acolhimento, de amparo, de apoio.

Gosto de pensar que o gestor em questão sentiu que suas ações dali para frente estavam sendo devidamente observadas. Prefiro acreditar que ele aprendeu que a a vontade dele deve cessar quando encontra a barreira da ausência da permissão de uma mulher que não tenha o mesmo interesse. Pode ser que ele não tenha aprendido nada no fim do dia. Mas ela parou de ser importunada.

E principalmente, eu escolho acreditar que caso a atitude dele se repita em outro lugar, haverá um outra pessoa disposta a não permitir que uma mulher sofra qualquer tipo de assédio.

Meu caro, seja esse homem. Minha cara, resista. Reaja.

Atitude importa.

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