Like A Girl

Pushing the conversation on gender equality.

Code Like A Girl

Como consegui lidar com um chefe tóxico e abusivo

Grávida em TI: assédio moral e a batalha por um pouco de humanidade.

Trabalho com TI há alguns anos e atualmente sou Analista de Requisitos. Em 2016 engravidei, e sofri todos os tipos de abusos psicológicos da minha gerente na época. Ela me deixou alguns meses sem atuar na equipe, afinal, grávida é sensível e não tem estrutura para produzir, deve ser preservada. Será que ela não estava tentando preservar a si mesma? Fui levando a gravidez adiante, ciente que seria demitida após o retorno ao trabalho, como 48% das mulheres no Brasil. O ambiente estava tão ruim e a gerente era tão tóxica e abusiva que eu já considerava que ser demitida, mesmo com uma filha pequena, seria um bônus.

Vale entender que tóxico não é definido como algo que nos é estranho e sim, como algo que produz efeitos nocivos no organismo. Pessoas tóxicas vivem em função da fraqueza daqueles que estão ao seu redor. O chefe tóxico vive, sobretudo, do medo do funcionário em perder seu emprego.

Eu não conseguia entender como era possível passar grande parte do meu dia em um ambiente onde me sentia acuada, sobrecarregada, perseguida e assediada. Isso foi me consumindo e comecei a entrar num ciclo de estresse + depressão. Minha gerente contaminava o ambiente ao seu redor. Não respeitava nenhum tipo de limite que as pessoas tentavam impor. Não entendia que ao impor aquele ritmo de pressão e autoritarismo não contribuía em nada para que a equipe a respeitasse e até mesmo a apoiasse nos momentos de decisão. Do que adianta querer ser uma arrogante mandona incapaz de reconhecer seus erros?

Veja bem, a pressão imposta pelo ambiente de trabalho que escolhi é normal, e no dia a dia aprendemos a aceitar essa pressão de forma mais equilibrada e consciente. Confesso até que nas ondas mais tranquilas sinto falta da adrenalina e pressão de realizar uma entrega importante com um prazo louco. Isso faz parte do pacote de itens que assumimos com essa profissão. Entretanto, na faculdade, ninguém me disse que eu teria que lidar com a incapacidade dos chefes em delegar, aceitar e descentralizar o poder. Minha gerente não era superior, mais inteligente, esperta ou talentosa que os membros da sua equipe. Sua capacidade de ignorar as questões individuais de cada membro da equipe era notória e você passava a importar para ela somente quando a interessava. Era evidente o quanto ela sufocava e anulava o potencial que a sua equipe tinha para oferecer.

O mercado é altamente competitivo e a hierarquia empresarial acaba sendo preenchida com todos os tipos de pessoas. Nem sempre essas pessoas recebem o treinamento correto para assumir uma função de liderança de uma ou mais equipes. Lidar diariamente com esse tipo de gerente gera danos para a saúde corporal e mental. É maçante saber que seremos provocados diariamente e mesmo assim lutamos para chegar ao fim do dia com o mínimo de sanidade. Pensar que a cada dia precisamos nos manter focados e calmos diante das exigências absurdas, ordens contraditórias, comportamento negativo e agressividade de nossos gerentes.

Infelizmente, no meio que vivemos hoje, é praticamente impossível evitar chefes com essa personalidade. O nível de estresse em que eles mantém o time faz os superiores acreditarem que eles estão “buscando o resultado”, “defendendo os interesses da empresa”, quando na verdade sabemos que os times são muito mais produtivos se tiverem uma liderança que compartilha, delega e cuida do lado humano. Precisamos nos conscientizar que esse tipo de chefe abusivo raramente vai se responsabilizar pelos seus atos, e frequentemente é apoiado pelos seus superiores. Podemos no máximo mudar o ambiente ao nosso redor e tentar nos impor limites para lidar com os estresses do dia a dia.

Como eu consegui sobreviver a tudo isso? Aprendi ao longo desses anos que o mais importante é não tomar para si as dores das agressões dessas pessoas; não reagir emocionalmente a esses abusos e manter sempre a calma. Eu não sou culpada pelo abuso do meu chefe. Eu não preciso temer sempre que um superior não aceita que eu não aja da maneira que ele espera. O importante é se manter firme naquilo que você acredita e elevar o profissionalismo ao máximo e sermos responsáveis. A melhor forma de combater a falta de profissionalismo, competência e humanidade é sendo irrepreensível. Quando houver abertura, ter uma conversa franca com o chefe pode ajudar a entender exatamente o que ele espera de você. Sobretudo,

não devemos criar a expectativa de que nossas ações vão mudar a mentalidade do abusador.

E minha chefe? Saiu do contexto antes que as consequências da sua má liderança desabassem no colo dela. Deixou uma equipe altamente desestruturada, desestimulada e conflitante para próximo que iria assumir.

Siga a tag codelikeagirlBR para ver nossos posts! 😀

Quer escrever ou traduzir artigos em português para a Code Like A Girl? Se você já faz parte do time de escritoras(es) da Code Like A Girl basta enviar seu artigo diretamente para nossa publicação. Se você ainda não faz parte do nosso time, envie uma mensagem direta para a conta de twitter CodeLikeAGirlBr. Nós avaliaremos seu artigo e ajudaremos a refiná-lo para publicação.