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Minha História, Django Girls e as Mulheres na Tecnologia

Grande parte das fotos neste post foram tiradas pelos fotógrafos oficiais do Django Girls Porto Alegre e podem ser encontradas aqui.

180 pessoas marcaram a maior edição do Django Girls que já houve NO MUNDO! o/

No final de semana passado eu tive a maravilhosa oportunidade de ser treinadora no evento global chamado Django Girls. Para aqueles e aquelas que não são familiarizados com programação, Django é um framework de Python. Python é muito conhecida por ser uma linguagem simples e poderosa para programação, considerando que o seu código pode ser muitas vezes facilmente escrito e compreendido. Mas essas não são as únicas coisas que atraem vários devs e tech nerds mundo afora e os fazem se apaixonar por Python: esta linguagem é gratuita e possui uma ampla comunidade de compartilhamento de conhecimento.

Utilizando o Code Anywhere.

Eu não sou uma desenvolvedora de software, apesar de eu sempre ter tido um crush enorme por tecnologia em geral, especialmente quando se tratava de inteligência artificial, androids, robôs (em uma maneira bem ficção científica, eu diria). Quando eu era criança, jamais passava pela minha cabeça de que estas coisas eram feitas por pessoas (e que elas não existiam somente nos filmes!). Eu sempre fui criativa e tinha um relacionamento ótimo com computadores. Eu lembro de uma Julia de 12 anos de idade sentada em frente ao Windows XP descobrindo o Publisher do Microsoft Office (coitado, nunca teve muita fama), criando meus websites imaginários, blogs para minha mãe, meu pai e até minha vó.

Eu ficava muito animada brincando o dia inteiro na frente do meu computador. Fosse jogando ou de fato criando imagens, desenhos e websites. O próximo passo foi de fato a descoberta do código, do fato de que havia algo mais complexo por trás daquilo tudo: algo que era uma ciência. No início da minha carreira eu tive a oportunidade de me aventurar com algumas coisas de Web Design. Tive cursos de HTML e CSS, mas por alguma razão, naquela época, eu não me sentia interessada por código. Na verdade, eu não me sentia capaz de fazer nada daquilo.

Julinha desenhava o dia inteiro… E ainda é assim!

Eu consigo lembrar exatamente quando aconteceu. Eu me transformei de uma criança crítica, sem dificuldades na escola, com boas notas, em uma adolescente insegura. Primeiro foi a Matemática. É claro que, naturalmente, a medida que avançamos no Ensino Médio, as matérias começam a ficar mais complexas. Mas eu sabia e sentia que o meu problema com a Matemática não era de aprendizagem. E como eu sei isso? Por que toda vez que eu encaro um desafio de lógica eu não me sinto curiosa, desafiada, instigada e muito menos capaz de resolvê-lo. Na verdade eu sinto medo, vergonha e até mesmo vontade de chorar.

E eu sei que muitas outras garotas também se sentem assim. Então isso aconteceu também com os meus desenhos. Veja só, como uma mulher artista, as pessoas sempre encaram você e o que você faz como “fofos”. Você não vai ouvir palavras que elogiam as suas habilidades, na verdade, você vai ouvir palavras que fazem você se sentir uma criança de dois anos mostrando seu primeiro desenho aos pais.

E o mesmo aconteceu com as minhas habilidades com a tecnologia, os computadores e a lógica. “A ciência não é para as mulheres”, as pessoas dizem. “Vocês são muito confusas, nada objetivas, vocês não tem raciocínio rápido”, e isso ouvi dos meus professores, diretores da escola, colegas de classe e de trabalho, chefes e, às vezes (mesmo que não de propósito ou por mal), da minha própria família e amigos.

Eu acabei indo parar na Psicologia (eu curto Psicologia também), mas isso não era de verdade o que eu queria fazer na época (e nem é hoje). Mas minhas amigas da escola iam fazer isso e eu me senti tão insegura ao me imaginar esse espaço onde meus conhecimentos iam ser frequentemente questionados. Eu não queria ficar sozinha. “Ok. Então eu vou fazer este curso por que não tem matemática no currículo”. Já que eu sempre fui uma NERDONA, me senti deslocada e diferente da maioria dos meus colegas de Psicologia. Eu me sentia um alien…

Eu comecei a trabalhar numa empresa de tecnologia, a ADP Brazil Labs, e lá conheci vários desenvolvedores e desenvolvedoras. Pessoas que me encorajaram de várias maneiras a molhar o dedinho naquela água que me parecia tão fria, mas que hoje já tô pronta para encarar os calafrios de entrar de barriga. Depois disso, troquei de curso (depois de 5 anos!) e fui para o Design Gráfico que já está sendo uma experiência maravilhosa e cheia de possibilidades diferentes para o meu futuro que me deixam muito animada. Claro, que não é um curso que envolva programação, mas ainda assim me deixa muito mais próxima das habilidades que eu sonhava em desenvolver quando criança.

E então chegamos ao Django Girls! Eu estava apavorada, considerando que eu não programo python há muito tempo. Quando uma colega de trabalho me encorajou a participar como treinadora eu suei frio. Como eu iria ensinar e encantar outras garotas para entrarem no mundo da programação? Acabei aceitando aos poucos essa ideia. Estudei dia e noite sobre python e django até a chegada do evento. E quando o dia chegou, eu dei de cara com todas aquelas 180 pessoas no Auditório Global do TECNOPUC. Me arrepiei toda. Eu estava nervosa, feliz, nervosa, feliz… Todas aquelas garotas estavam lá por que tinham interesse em aprender sobre programação e tecnologia. E o melhor: se sentindo plenamente capazes de fazer isso!

“Não tem razão alguma para ter medo de programar. O máximo que pode acontecer é um erro. Não, o seu notebook não vai explodir e estragar. Pode ir sem medo!”

Codar algo não é fácil, de fato… E muito menos é algo que você pode virar mestre de um dia para o outro. Você tem que exercitar esta habilidade todos os dias. Assim como a sua auto estima! O Django Girls foi mais do que um curso ou uma palestra. Foi sobre mulheres trabalhando juntas, compartilhando os seus conhecimentos e as suas histórias e, principalmente, o seu amor pela tecnologia e a ciência. Eu estava tão contente por estar lá, todo o nervosismo foi embora. Foi como se o tempo tivesse parado e eu poderia ficar lá eternamente, codando, designando e conversando.

Uma Julia não mais tão jovem com a sua criação.

Poxa, já falei para caramba… Tá ficando textão. Então eu só queria dizer para todo mundo que tirou uns minutinhos para ler este texto que deixem as pequenas e grandes garotas saberem que elas são capazes de fazer tudo que elas quiserem. Encorajem elas quando exercitarem seus conhecimentos lógicos e científicos. Encorajem quando elas estiverem sendo criativas.

Diga a elas: “Você é C R I A T I V A!”, “Você é I N T E L I G E N T E!”, “Você é H A B I L I D O S A!”. Você é muito mais do que o seu corpo e muito mais do que qualquer pessoa disser sobre você. Você é mais que bonita, mais que educada, mais que fofa, mais do que uma princesa: você é uma GUERREIRA!

Eu gostaria de agradecer à ADP Brazil Labs por ter patrocinado o Django Girls e me incentivado a participar do evento, aos meus colegas maravilhosos e maravilhosas que me inspiram e às garotas iradas que conheci no evento e pretendo levar junto comigo por muito tempo!

Se alguém lendo este texto se sentir interessado em realizar um Django Girls em sua cidade, basta acessar este website. Lá você encontra os tutoriais e os passo-a-passo para a realização. E claro, se você ficou curiosa sobre Web Design, HTML, CSS, Python, Django ou qualquer outra coisa que eu comentei neste texto, fique bem à vontade para me enviar um email em gomesbjulia@gmail.com.

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