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Mudando de cidade a trabalho — acolhimento, apoio e muitas emoções

I got my ticket for the long way ‘round…

A ideia de mudar de cidade tem efeitos diferentes, dependendo da cultura. Há exemplos em que mudar de cidade é parte do movimento de alforria, uma justificativa válida para sair da casa dos seus pais sem dizer "eu não aguento mais morar com você".

Apesar de a parte de não aguentar mais ser verdade, nunca pensei em sair do Rio de Janeiro, exceto caso fosse para outro país. Sempre me senti muito bem na minha cidade, e tenho laços fortes com pessoas e lugares que fazem do Rio um lugar que eu amo muito. Com isso, saí de casa aos 25 anos, tão logo consegui ganhar o suficiente para não morrer de fome, e fui morar no Méier ❤.

Há 12 anos trabalho com tecnologia, processos e produtos digitais. Destes, há 9 anos que resisto bravamente às ofertas para mudar para São Paulo. Minha resistência tinha alguns pontos chave: eu amo o Rio; São Paulo é uma cidade workaholic, e eu já sou workaholic por natureza (ter um ambiente que te desacelera ajuda); e São Paulo não tem praia.

"Ah, mas Andressa, branca assim, você na praia? Até parece!"

Miga, nada que um FPS70 não resolva.

Nos últimos anos, o Rio vem se deteriorando do ponto de vista de infraestrutura e segurança. A cidade foi saqueada pelos políticos que elegemos, e continuamos elegendo. O último é um bispo da Igreja Universal e usa os recursos da prefeitura para dar suporte (de qualquer tipo possível — logístico, administrativo, legislativo…) ao seu verdadeiro "business".

Em paralelo, estou atuando em um projeto escalado, com times no RJ, SP e BH. Mas a maior parte do esforço de acompanhamento fica em São Paulo, por conta do cliente. Ainda, a maioria dos projetos que a empresa recebe tem clientes em SP. Considerando que meu papel é de PO, não posso abrir mão de estar onde o cliente está, se isso possível for.

Com o projeto, eu estava vivendo de ponte aérea. E quem já viveu de ponte aérea sabe como pode ser desgastante. Como cereja no sundae, meu namorado mudou de emprego, também para São Paulo. Agora não só eu estava passando a semana em São Paulo, como meus catioros estavam ficando abandonados no RJ, e minha vida estava de pernas pro ar.

Joguei a toalha. Hora de mudar.

A primeira coisa que reparei é que apoio é algo que muda com a cultura do local. Além de receber muitas ofertas de ajuda — o que eu também receberia no RJ — vi que as pessoas genuinamente paravam o que estavam fazendo para me dar apoio em algo que eu precisasse, diferente do carioca padrão.

Isso vai desde encontrar um lugar pra morar que fosse realmente bom para mim, no que pude contar com colegas de trabalho vasculhando o google maps para me dar um parecer de algum apartamento de que eu havia gostado, até recomendação de pessoas para fazer faxina, preocupação com meus filhos peludos e outros eventos semelhantes.

Enquanto pessoa carioca que sou, eu espero muito pouco de outras pessoas, principalmente se eu não tenho muita proximidade. Estou acostumada com a cultura do "vamos marcar" (o que significa "nunca"), então o cuidado e ajuda até ali foram muito bem recebidos, mas sempre com um pé atras.

Até que, dois dias depois da minha mudança, uma amiga muito próxima, que estava em São Paulo a trabalho, vai de emergência para o hospital extrair o apêndice.

É claro que ela é uma pessoa querida por todos, mas fiquei espantada como rapidamente um mutirão se formou. Tínhamos pessoas se responsabilizando por pegar as coisas dela, dormir com ela no hospital, ir visitá-la para mantê-la com um espírito positivo, cozinhar para ela… Nada disso reflete a cultura com a qual eu estou acostumada, e fiquei muito grata quando percebi que ela estava apoiada por todos. Fiquei pensando o que torna São Paulo tão diferente do Rio neste aspecto.

Antropologicamente, em um ambiente com muitas ameaças externas, as pessoas se unem em prol de proteger a comunidade. Este fenômeno fica claro em cidades que recebem muitos imigrantes, como é o caso de São Paulo. Analisando a posteriori, me dei conta de que as pessoas que foram mais efusivas e mais prestativas ao me oferecer ajuda foram justamente as pessoas que não eram de São Paulo. Elas acolhiam porque sentiram na pele o desconforto de estar em uma cidade nova, e os desafios que isso representa. Essas mesmas pessoas foram as que se uniram para ajudar minha amiga, e percebo um grande sentimento de proteção e amparo neste movimento.

Então, meu maior aprendizado na mudança para São Paulo até agora foi: se você está se mudando para longe de casa, encontre os imigrantes. Eles serão capazes de acolher e apoiar de uma forma que os locais não conseguem. E quanto mais imigrantes a cidade tem, melhor para você, pois maior será este sentimento, e o apoio que vem com ele.

Vivemos tempos em que pessoas poderosas falam que lugares menos privilegiados são "países de merda". Neste momento, nada reforça mais minha fé na humanidade do que o poder da empatia que só um imigrante pode dar.

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