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Mulheres em TI: um recado para os homens

Em 8 de março de 2017 fez um ano que comecei a trabalhar no meu atual emprego, em uma renomada empresa de desenvolvimento Ágil de software. Foi um ano de intenso esforço na busca de aplicar uma abordagem Ágil, Lean, orientada a produto e a design centrado no usuário.

O aniversário da minha entrada coincide com o Dia Internacional da Mulher. Estando imersa no mercado de tecnologia nos últimos 11 anos, sei que ainda há muito caminho a trilhar para melhorar a cultura no ambiente de tech.

Uma das premissas do Ágil é a crença em que times multidisciplinares são mais produtivos. Pluralidade e diversidade de conhecimento, pensamento e experiência é parte do interesse de todos. O time deve ser um organismo coeso, com a combinação de todas suas habilidades sendo mais do que a soma das partes.

Isso entra em confronto direto com a realidade que encontramos em algumas empresas de software e departamentos de TI. A estimativa é que entre 12 e 17% das pessoas trabalhando em TI sejam mulheres.

Mas nem sempre foi assim. A primeira pessoa a programar no mundo foi uma mulher. Ela criou o primeiro algoritmo, e seu modelo mental nos mostrou que podíamos "ensinar" máquinas a fazer coisas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, mulheres ficaram encarregadas de decodificar as mensagens criptografadas. A máquina de guerra tinha departamentos enormes, somente com mulheres, trabalhando nessas comunicações. O Bletchley Park foi um grande exemplo disso. Grace Hopper, uma das mulheres trabalhando no setor de inteligência durante a Segunda Guerra, criou a primeira linguagem de programação e compilador, mudando a forma que inserimos comandos de uma linguagem numérica para uma linguagem natural, próxima à humana. A lista de mulheres não reconhecidas em tecnologia é enorme.

Até a década de 1980, apesar de um enorme preconceito de gênero em relação à participação de mulheres na educação e no trabalho, elas eram vistas como boas matemáticas, boas em decifrar códigos, e boas especialistas em software. Naquele momento da História, aparentemente os homens eram mais atraídos por construir coisas — através da engenharia civil, espacial ou mecânica.

Até 1980, o número de mulheres que se formavam com um diploma em ciências da computação vinha crescendo, chegando a alcançar quase 40%. Infelizmente, desta década em diante, o número de mulheres se formando e trabalhando em tecnologia foi caindo, até alcançar os 12–17% que vemos hoje.

Estas informações apontam para a inveracidade de percepções como "Tecnologia não é um lugar para mulheres", "mulheres não sabem fazer conta" ou "mulheres não sabem programar". Na verdade, isso parece ser muito mais produto da cultura de um determinado período do que um sintoma de características biológicas.

O que é assustador é que isso significa que estamos perdendo aproximadamente metade do nosso potencial de inovação porque estas mulheres não conseguem chegar ao mercado de tecnologia!

Quando olho para a cultura Ágil e seus valores, à medida que me aprofundo em design centrado no usuário e em gestão de produto Lean, me surpreende quanto das características consideradas "femininas" são exatamente aquilo de vemos faltando. Precisamos de comunicação, empatia, troca e capacidade de negociação não-violenta. Sejam essas características derivadas de natureza ou criação, precisamos desesperadamente de mais mulheres em tecnologia!

O que temos hoje nas empresas de tecnologia é um ambiente hostil, agressivo e infértil, em que a diferença é muitas vezes colocada como um problema que você tem que resolver para poder se encaixar. Se estamos criando produtos para pessoas que têm diferentes experiências de vida, ideias e pontos de vista, então as pessoas criando estes produtos também deveriam ter um conjunto de vivências, pensamentos e crenças diverso.

Empresas com ambientes de igualdade de gênero têm menos rotatividade, maior satisfação dos empregados, maior retenção de talentos e maior produtividade do que empresas com menos diversidade.

Homens que trabalham e vivem em ambientes com igualdade de gênero fumam menos, bebem menos, tomam menos drogas recreativas, precisam menos de atendimento médico de emergência, tomam menos remédios de tarja preta e… fazem mais sexo do que homens em empresas com menos diversidade.

Já que temos todas essas informações, por que não vemos mais mulheres em tecnologia? Parece que seria a abordagem mais economicamente inteligente em criar um time dentro de uma empresa.

Como podemos fazer para mudar isso?

Inspire meninas a considerar carreiras em tecnologia

Nos últimos 30 anos, o mercado de brinquedos para crianças sofreu com uma grande polarização de gênero. Pesquisas da década de 1990 mostram que famílias eram mais sujeitas a comprar um computador para um menino do que para uma menina. Isso acontecia mesmo quando as meninas mostravam interesse claro em tecnologia.

À medida que os estereótipos eram reforçados, meninas brincavam de boneca, salão de beleza e moda. Elas eram treinadas para serem mães e esposas estereotípicas. Os meninos, não…

Meninas precisam de exemplos femininos e mentoras em quem se projetar.

Você só pode se visualizar como algo que possa ser alcançado pela sua imaginação. Se você não conhece nenhuma mulher astrofísica, fica difícil se imaginar virando uma. Ter pessoas a quem admirar nas áreas exatas é crucial para empoderar mulheres e garantir que elas tenham a confiança necessária para buscar uma carreira em um ramo de exatas.

Precisamos ativamente lutar contra o mansplaining, a manterruption, e a bropriation.

Estudos mostram que mulheres só falam por aproximadamente 25% do tempo em reuniões corporativas. Inclusive, se você quiser testar, tem este app aqui. De forma similar, ao analisar palestras no ramo de tecnologia, a conclusão foi que os homens têm uma chance 42.6% de serem interrompidos, enquanto as mulheres tem uma chance de 89.3%.

Homens interrompem outros homes por volta de duas vezes a cada 3 minutos, enquanto mulheres são interrompidas entre 2,6 e 2,8 vezes no mesmo período.

Você pode ajudar! Nestas reuniões, dê as mulheres o crédito que elas merecem citando-as. Pergunte especificamente sobre a opinião delas durante as reuniões, e reitere que as ideias vieram delas ao longo da reunião.

Ajudando as mulheres a alcançar seu potencial

Considerando todos os fatores ambientais, não é surpreendente que mulheres se candidatem menos a posições de liderança, se vejam como menos capazes, sejam mais suscetíveis a sofrer de síndrome do impostor e a abrir mão de carreiras em tecnologia simplesmente por achar que não são boas o suficiente. Se você conhece alguém que está passando por isso, dê apoio, incentive, e traga um ponto de vista mais realista, ajudando-as a perceberem seu valor.

Combata comportamentos impróprios e estigmas sociais

Comentários como "ela deve estar na TPM" ou "por que você não sorri mais?", "deve ser mal comida", "quando você pretende ter filhos?" acontecem com mulheres o tempo todo, e são muito mais nocivos do que parecem.

A metáfora da picada de mosquito funciona lindamente aqui. Uma picada é incômoda, algumas são irritantes, mas muitas são insuportáveis. É fácil dizer que um comentário ou outro é bobeira, uma dúzia é muito cansativo, mas muitos é como tortura chinesa com goteira na testa. É intolerável.

Quando você ouvir comentários inapropriados, ou se você estiver reproduzindo os mesmos, faça uma pausa e se questione: você faria estes mesmos comentários sobre um homem? Se a resposta é não, somente pare. Se não foi você, explique para a pessoa que o fez porque ele é inadequado.

A voz de um homem frequentemente recebe mais crédito (por qualquer coisa que ele diga, na verdade). Use esta vantagem para advogar pelas mulheres, apontando as injustiças que você vê, ou ajudando mulheres a recuperar seu direito a falar quando elas não tiverem voz. Todos lucramos com isso, inclusive os homens.

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