Like A Girl

Pushing the conversation on gender equality.

Code Like A Girl

Não é só uma piada

Photo by Eye for Ebony on Unsplash

Não se nasce mulher, torna-se.

A máxima de Simone de Beauvoir é dolorosamente verdadeira para as mulheres em tecnologia. Frequentemente nos vemos indo contra nossos instintos para nos adequar ao que é esperado de nós. Se temos mais conhecimento que os homens, temos que propor melhorias com cuidado para não ferir os egos masculinos. Se temos mais garra, temos que fazer o dobro do esforço para termos nossas ideias ouvidas.

Há um tempo atrás estive em uma empresa em que havia homens e mulheres assumindo papéis de liderança junto aos times. Sempre que havia a chance de colocar um novo piloto, uma iniciativa de inovação ou um teste de melhoria de um processo, rapidamente era escolhido um dos rapazes dentre os líderes para assumir essa responsabilidade. No entanto, no dia a dia os mesmos rapazes só faziam reclamar, enquanto as mulheres puxavam iniciativas de troca de conhecimento, benchmark com outras áreas e empresas, participação em eventos e treinamentos.

Um dia, uma dessas líderes veio me procurar, falando sobre dicas de eventos e técnicas novas. Ela disse

Por incrível que pareça, quem anima para fazer essas coisas aqui são as mulheres.

Considerando que ela era uma das que fazia mais esforço para trazer melhoria contínua ao seu time, aquilo me doeu. Perguntei porque ela achava tão surpreendente que fossem as mulheres. Ela não soube me responder, e só colocou que esperava uma postura diferente dos meninos.

Não espanta que o ambiente fosse de um machismo sutil. Piadas com o corpo da colega, comentários que só apareciam quando não havia mulheres na sala, e o meu favorito: pedidos de desculpas às mulheres quando os homens falavam palavrão – mesmo que fosse de conhecimento público que as mulheres em questão também falassem. Este machismo disfarçado de piada e gentileza é o que permite que acreditemos que gênero não é uma questão. Que não há sexismo. Mas ele está lá, no nosso inconsciente.

Ela não estava conseguindo encontrar uma explicação racional porque a explicação racional não existe. Por que esperamos que os rapazes sejam aqueles a assumir a liderança? É claro que há um viés de disponibilidade aí. Olhamos em volta e vemos líderes e gestores homens em grande maioria. Logo se forma uma imagem na nossa cabeça do que é um líder, um gestor. E uma mulher não é a primeira ideia que vem à mente.

Temos duas grandes desvantagens neste cenário, para ambos os gêneros. Do lado das mulheres, é esperado que elas resolvam os problemas de forma silenciosa, sem chamar atenção. Dos homens, é esperada uma liderança e certeza, mesmo que muitas vezes eles não estejam prontos ou interessados em agir desta forma. Há homens que são excelentes líderes? Sem dúvida. Mas a amostragem indica que estamos escolhendo como líderes alguns homens que não estão preparados para isso, e estamos deixando de lado várias mulheres que estão.

E estas mulheres estão se colocando em dúvida.

É importante lembrar que mulheres são socializadas para olhar para as necessidades das outras pessoas. Que elas são educadas para se tornarem elas próprias educadoras, dando disciplina de uma forma gentil. Homens são socializados para verem a violência como algo natural e esconderem suas emoções, que são percebidas como sinal de fraqueza.

Eu admiro profundamente homens que conseguem se mostrar vulneráveis e que usam isso para liderar pelo exemplo. Mas no cenário que me levou a escrever este artigo, em um ambiente cujos líderes estavam equilibrados em gênero, os homens assumiram uma postura de “vou reclamar, mas não vou me desgastar com algo que não consigo mudar” enquanto a mulheres continuavam buscando soluções, incansáveis.

Quantas de nós não estão nesta situação hoje? Você já se perguntou quantos de seus colegas deveriam estar se esforçando tanto quanto você?

E, mais importante:

O que podemos fazer diferente para mudar este cenário?

De cara, assumi para mim 3 posturas básicas:

  1. Eu não rio ou aceito piada machista (ou racista, homofóbica ou transfóbica). Dependendo do ambiente, eu tenho maior ou menor liberdade de expor, mas no mínimo eu coloco o clássico "não entendi", e deixo a pessoa se contorcer tentando explicar.
  2. Eu reforço a autoestima das mulheres que estão se questionando sempre que eu identifico a situação. Nós já estamos remando contra a corrente, e isso exige uma força absurda. O mínimo que podemos fazer é nos apoiar.
  3. Eu busco reconhecer o valor da vulnerabilidade masculina. Sempre que me deparo com um homem em situação vulnerável, eu busco deixar claro que ele pode e deve ser vulnerável, e que o que está errado é o mundo, e não o que ele está sentindo.

E você? Qual é a pequena mudança que você pode fazer para tornar o mundo melhor?

Siga a tag codelikeagirlBR para ver nossos posts! 😀

Quer escrever ou traduzir artigos em português para a Code Like A Girl? Se você já faz parte do time de escritoras(es) da Code Like A Girl basta enviar seu artigo diretamente para nossa publicação. Se você ainda não faz parte do nosso time, envie uma mensagem direta para a conta de twitter CodeLikeAGirlBr ou um email para brazil@codelikeagirl.io. Nós avaliaremos seu artigo e ajudaremos a refiná-lo para publicação.