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Não se nasce PO, torna-se

Há bem menos de um ano eu não conhecia o termo Product Owner, muito menos Scrum Master. Não sabia nem o que era Scrum, Manifesto ágil? Tampouco. Não sabia que dava para desenvolver um produto com pequenos ciclos de iteração, não sabia nem como criar um produto. E aí, com uma oportunidade de emprego, eis que um novo universo se abre pra mim, e eu fiquei fascinada. Era incrível como subitamente tudo fazia sentido, apesar de ser muito complexo. Mas calma, estou me adiantando muito, vamos dar uns passinhos para trás.

Em primeiro lugar o que eu fazia antes de entrar nesse universo? Eu era bióloga, e trabalhava com expressão gênica — tudo a ver com criação de produtos digitais né? Meu mundo era outro, eu vivia imersa em DNA, RNA, enzimas dos mais diversos tipos… Então, como eu comecei a fazer o que eu faço hoje? Participei de um movimento de recrutamento que buscava pessoas que tivessem um perfil de curiosidade, desafio, vontade de aprender e a necessidade de mudar para trabalhar em uma empresa de produtos digitais. Comecei meu treinamento junto com o time de Scrum Masters, mas logo ficou claro que eu podia contribuir mais de outra forma.

Quando eu descobri o que um PO fazia, percebi que era aquilo que eu queria para mim, até porque, por mais incrível que pareça, ser PO não tão diferente assim de ser pesquisadora. Os dois validam hipóteses, os dois querem criar algo incrível que vai ser benéfico para muitas pessoas, os dois precisam pivotar e começar de novo… é aí que está a graça ser PO para mim: tem muito a ver com ser cientista, e os dois têm a ver com fomentar nossa curiosidade, adorar um desafio, estar disposto a aprender, ensinar e ser ensinado.

Bom, como é desenvolver produtos digitais em um mundo ágil da visão de uma pessoa que chegou agora?

Já adianto que não é um mar de rosas como os livros sobre o assunto costumam retratar. Dificilmente você vai encontrar um stakeholder 100% aberto à cultura ágil. Ele vai enxergar a necessidade de mudar, mas na primeira dificuldade ele vai querer voltar para o que ele conhece, confia e controla, e aí vai ser preciso muito jogo de cintura para não deixar isso acontecer. E eu acho que essa tem sido uma das minhas maiores dificuldades nesse novo mundo. Por que pra mim faz tanto sentido criar produtos da forma como criamos que eu acho difícil entender quando outra pessoa quer fazer de outra forma.

Acho válido ter em mente que muitas vezes conceitos que achamos simples e fáceis de compreender são bem mais complexos para pessoas que não estão habituadas ao mundo ágil. Um exemplo disso é o que eu estou vivenciando em um produto recente: levamos um tempo significativo para o cliente entender o conceito de MVP e por isso acabamos criando features que poderiam ser desenvolvidas mais à frente (ou talvez nem isso). Em determinado ponto estávamos com um MVP gigante e com a necessidade de cortar escopo feito loucos, para que o atraso (a pedido do cliente estamos trabalhando com data pré-definida) não causasse um impacto relevante ao projeto. Muito do que estou contando aqui aconteceu porque estávamos sob uma grande pressão de mostrar resultado rápido e, por mais que estivéssemos nos esforçando para fazer o nosso melhor, não estávamos entendendo a fundo as necessidades dos nossos usuários. Conseguimos perceber a tempo o rumo que estávamos tomando e agora estamos aos poucos alinhando nossas expectativas em ambos os lados e com isso já conseguimos trabalhar com o que de fato um MVP é: teste de hipóteses e não um produto acabado.

Outro ponto importante que eu aprendi é que o stakeholder vai passar uma enxurrada de demandas que ele tem certeza que são muito importantes, e que o projeto não vai poder seguir sem isso. Cabe a nós POs fazer a triagem através de testes e prototipação, separando o que é realmente imprescindível do que dá para esperar mais pouco. Muitas vezes, esses itens que “dá para esperar” não são nem tão necessários assim e podem até serem esquecidos (pelo próprio stakeholder) ao longo do desenvolvimento. Saber o que o cliente quer é fácil, difícil é saber do que ele precisa. Trabalhar nessas questões é o que vai definir a linha tênue entre um produto ok e um produto excelente. E, para ajudar nesse processo, descobri ao longo da minha curta experiência o poder das dinâmicas de consenso, de testar as hipóteses levantadas, ouvir as necessidades dos usuários, coletar informações, pesquisar, pivotar quando necessário, arriscar. Também que não existe mágica para desenvolver um produto que as pessoas vão querer usar. É preciso muito trabalho duro e muita paciência. Mas, ao mesmo tempo, é muito gratificante ver o trabalho pronto, o produto funcionando e as pessoas usando e aprovando.

E então?! Como é se tornar PO?

Olha, é difícil, não vou mentir. Mas é recompensador. Qualquer pessoa que deseja se tornar PO deveria estar aberta a tudo que as outras pessoas têm para te ensinar. Acredite que seu time sabe do que está falando, confie nas pessoas, saiba dizer não quando for necessário, e saiba ouvir. Você é parte do processo, seu time conta com você e você precisa contar com eles também. Peça ajuda, não tenha medo de errar, estude, estude muito, sempre temos muito a aprender. Confie em si mesmo, confie no seu Scrum Master, ouça o que ele tem a te dizer, confie no seu time eles sabem o que estão fazendo. Valide hipóteses, não faça nada sem questionar o porquê. Pesquise, ouça seus usuários e não tenha medo de pivotar se for necessário. Faça dinâmicas, elas funcionam. Seja verdadeiramente dono seu produto, lute por ele, não faça algo por fazer ou por que alguém pediu, entenda a necessidade das pessoas que vão usar seu produto. E acima de tudo, faça um produto que você ficaria feliz em usar, que você indicaria a alguém com certeza , pois é o melhor produto que você já usou.

Depois de tudo isso eu continuo aqui na minha nova jornada, feliz, sabendo que eu tenho tudo a aprender ainda, mas doida pra ver o que vem pela frente e fascinada por todas as dores e alegrias de trabalhar com produto. Porque ninguém nasce PO, e sim torna-se, através de um aprendizado constante, que muda sua forma de pensar e agir no mundo… para melhor.

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