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Poucas mulheres na Tecnologia?

Poucas mulheres na Tecnologia? O que isso pode ter a ver com #Manterrupting, #Bropriating, #Mansplaining, #Gaslighting e #Slutshaming

Tempo de leitura aproximado: 10 minutos.

Pessoas de Tecnologia, ainda somos pouquíssimas mulheres entre muitos homens aqui em terras brasileiras. Com exceção de poucas empresas, como por exemplo, a ThoughtWorks, que busca de modo intencional por diversidade e equilíbrio de gênero. Salvas as singularidades, o mercado ainda é muito masculino. Esse grande contingente masculino não é um desprivilegio apenas nos domínios da Tecnologia, mas é em Tecnologia que quero focar.

A ideia aqui é revelar algumas notas mentais que fui acumulando com experiências do dia a dia. Especificamente sobre situações de #Manterrupting, #Bropriating, #Mansplaining, #Gaslighting e #Slutshaming.

#SpoilerAlert

Depois de ler este artigo talvez você nunca mais consiga ver algumas situações como antes.

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.” — Albert Einstein

Essa frase atribuída a Albert Einstein fala sobre a impossibilidade de pensar como antes, depois que algo amplia sua capacidade de compreensão. Nós estamos bem longe da perfeição, mas eu consigo ver vários fatos que mostram uma profunda mudança social, uma grande melhoria da condição humana, porque ampliamos nossa capacidade de compreensão.

“Para inovar verdadeiramente, não podemos deixar para trás metade da nossa população”. — Reshma Saujani, fundadora da BIG Girls Who Code.

E nesse contexto, depois que eu entendi o que significa #Manterrupting, #Bropriating, #Mansplaining, #Gaslighting e #Slutshaming nunca mais eu pude ver as situações como antes. Contribuindo com essa mudança na condição humana, além da Reshma, existem muitas outras pessoas querendo dar um basta às tradicionais atitudes machistas na área de Tecnologia.

Uma dessas pessoas é a Suzy Oliveira. Ela é a idealizadora do evento para mulheres chamado Code Girl, que surgiu como uma ação para dialogar sobre as razões pelas quais a participação feminina em TI no Brasil é tão pequena. A Suzy me mostrou dados de uma pesquisa com 90 mulheres, o objetivo foi entender algumas razões relativas a não permanência de mulheres na área. Dentre as perguntas e respostas, algumas precisam de grande atenção.

Foco nestas três:

1. O que te motivaria a ABANDONAR a área de TI?

2. Qual a maior dificuldade encontrada no curso superior em Computação?

3. Na sua opinião, o que poderia explicar a baixa presença de mulheres estudantes/profissionais em Computação?

Analisando as respostas de 41 dessas 90 mulheres, a palavra preconceito apareceu 53 vezes. Ou seja, 45,5% mulheres da área percebem preconceito na área de TI no Brasil. Pode ser que muitas dessas mulheres simplesmente abandonem a área. Agora você já tem certeza sobre algum dos porquês.

Eita, eu preciso voltar um pouco. Preciso esclarecer esses termos inglesados que aparecem aqui no título.

As melhores explicações que encontrei foram lá da página ThinkOlga.com, no excelente artigo: o machismo também mora nos detalhes.

#Manterrupting quando uma mulher não consegue concluir sua frase porque é constantemente interrompida pelos homens ao redor.

#Bropriating quando um homem se apropria da ideia de uma mulher e leva o crédito por ela.

#Mansplaining quando um homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio a mulher, como se ela não fosse capaz de compreender, por ser mulher.

#Gaslighting violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor a acharem que ela é louca, que ela tem problemas de memória ou que é incapaz.

E além disso existe também a expressão

#Slutshaming tipo de bullying que ocorre quando uma mulher é ridicularizada por sair de um padrão pré-estabelecido sobre o que cabe ou não a uma mulher.

Nota Mental 1. Depois de ler e entender, eu pensei: como eu não via isso antes?

Caiu a ficha, e eu percebi o quanto escancaradamente fazem isso comigo e com outras mulheres. Eu nunca mais pude deixar de notar, das mais sutis situações, as mais gritantes, revoltantes e dolorosas.

Essas opressões são tão constantes que chegam a parecer algo natural, e imperceptível. É algo que incomoda, mas você não sabe exatamente o que é. É incrível como dar nome às coisas torna elas mais nítidas e nos dá mais segurança pra falar.

Então uma vez conscientes do problema, já podemos parar de reproduzir os erros. Você pode começar, por exemplo, parando de rir ou parando de minimizar o problema quando essas situações ocorrerem. Muito ajuda quem não atrapalha.

Onde estão as mulheres de Tecnologia?

Onde estão as mulheres nas universidades de TI? Onde estão as mulheres de TI nas empresas? Onde estão as mulheres nos eventos de TI?

Lembrem-se, uma das respostas sem dúvida é que estamos tentando fugir do preconceito, da cultura machista. Nos impõem que se queremos ser profissionais de sucesso temos que ser perfeitas (aceitar “certas” coisas faz parte de ser perfeita). Assédio não é só quando passam a mão na bunda, é também quando me sufocam e me tiram o direito de agir como ser inteligente e pensante que sou.

Tá, eu explico!

Eu devo abrir mão do direito de falar? Quando estou tentando expor por que faz sentido quebrar algumas estórias em tarefas, e um homem me interrompe o tempo todo, mesmo eu pedindo a ele: “você pode parar de me interromper?”, ele me respondeu com voz alta e em tom bravo: NÃO. Eu comecei a falar mais baixo, cansei e desisti. Isso prejudica o time inteiro, torna o ambiente inseguro, nos desencoraja, e aí deixamos de expor nossas ideias. #Manterrupting

Eu devo achar que tá tudo bem, quando um homem repete a minha ideia de mudar o formato das retrospectivas, e as pessoas só acharam a ideia boa quando um homem falou exatamente o que eu falei? Isso me joga na vala profunda da Síndrome do Impostor. #Bropriating

Eu devo ouvir uma explicação sobre a origem da vida só porque perguntei algo muito simples, por qual motivo mudaram a prioridade da estória que eu acabei de priorizar? #Mansplaining

Eu devo acreditar que uma mulher é descompensada porque ela está perguntando “demais” ou participando “demais” em uma Fishbowl, onde existiam muito mais homens do que mulheres, e o facilitador menciona várias vezes que a mulher está falando demais, diminuindo assim a relevância de sua fala? #Gaslighting

Eu devo achar engraçado quando uma colega de trabalho volta do almoço com o cabelo molhado, e duas pessoas riem e comentam “você sabe o que isso significa, né?”, dando a entender que a mulher voltou de um motel, taxando-a de promíscua? #Slutshaming

A consequência é que existe uma séria vontade de fugir quando escuto pessoas homens e mulheres dizendo que tenho que suportar tudo isso, que é assim que funciona, caso contrário não terei sucesso como profissional.

Nota Mental 2. O calo da sandália que mais gosto! Cadê as mulheres nos Eventos de Tecnologia?

Somos minoria, e pouco temos a chance de falar, de treinar, de experimentar. Então como seremos boas palestrantes? Se não temos a chance de nos desenvolvermos, quão mais difícil é para nós sermos disruptivas, ou excelentes em tecnologia?

Quando conseguimos nos destacar dizem a gente é guerreira, mas preste muita atenção: dizer que somos guerreiras é o reconhecimento de que nós sofremos mais do que o necessário. Ah, e muitas vezes poucas palestrantes se destacam, e as outras passam a tem pouquíssimas chances, porque os avaliadores encarnam nos destaques.

Mas, nós mulheres também precisamos abrir espaço para outras mulheres ocuparem. Alguém disse lindamente que a pessoa que caminha sozinha pode até chegar mais rápido, mas aquela que vai acompanhada, com certeza vai mais longe, acho que foi a Clarice Linspector. Faz sentido?

Em eventos é onde realmente vejo pouquíssimas mulheres, principalmente nos mais caros. Mesmo sabendo que os eventos tem um código de conduta, ainda assim acontecem várias dessas situações de assédio. As pessoas organizadoras, voluntárias e participantes precisam sair do raciocínio automático e parar de ver essas situações como algo "normal”, elas precisam ser orientadas e observadas.

A jaca a ser descascada aqui (você sabe como é realmente difícil se já cortou uma jaca) é que essas cinco situações (Manterrupting, Bropriating, Mansplaining, Gaslighting, Slutshaming), ocorrem com tanta frequência que as pessoas não percebem que as estão praticando, naturalizam a violência (sim, é uma violência), e usam isso como desculpa para nunca mudar, nunca agir diferente. Cadê a melhoria contínua minha gente?

Manter o ambiente seguro precisa ser prioridade. Já é muito difícil estar lá, se a mulher é agredida, dificilmente ela volta, e muitas vezes nem está claro para ela qual foi o desconforto. Mas o poder é de vocês organizadoras/es, a culpa não é da pessoa agredida. É ela que é “fraca”, ou é a organização que é permissiva com comportamentos que tornam o ambiente inseguro?

Em um dos eventos em que participei da organização (eu era a única mulher entre 8 pessoas da organização), lembro que um dos homens falou na retrospectiva que tivemos após evento:

“Eu acho que não devemos mais ter cotas para mulheres. Tiveram palestras de mulheres que foram ruins.” — Homem sem noção.

Como assim? E não tivemos homens com palestras ruins também? D´OH! No próximo evento só mulheres no limite da perfeição? Para né!
Mas Mila, vc deu feedback? Claro que não, eu tentei argumentar e rolou um #Manterrupting barulhento, me senti acuada e calei a boca.

Nota Mental 3. Isso cansa, mas a gente chega lá!

O progresso intelectual não para e a evolução moral não retroage. Agilidade não é velocidade, é ritmo com qualidade. E assim cada vez mais pessoas passam a fazer parte da mudança social que provoca a melhoria da condição humana.

E agora, será que você vai conseguir pensar como antes, deixar de perceber quando vivenciar situações de Manterrupting, Bropriating, Mansplaining, Gaslighting e Slutshaming?

Bônus: esta TED Talk da Reshma Saujani: Ensine coragem às meninas, não perfeição, e também esta outra da Margaret Heffernan: Esqueça a hierarquia no trabalho, falam de forma muito inteligente sobre a relevância, e os problemas da ausência, da mulher em nosso mercado de trabalho. Assiste e incrementa seu cabedal de conhecimento!

Sucesso!

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