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Sobre ser gay em uma empresa de tecnologia

Quero começar falando da história desse post, porque ela diz muito a respeito da minha evolução em lidar com minha sexualidade em meu trabalho.

Não é mais segredo que eu sou o G da sigla LGBT. Eu já sei disso faz muitos anos e sempre foi algo delicado de se lidar. Quando comecei a escrever esse texto, eu não era assumido na minha empresa. Mal tinha conseguido sobreviver ao trauma de me assumir para os meus pais, não tinha forças para enfrentar mais hostilidade. Eram poucas as pessoas que sabiam e, pasme, nem minha melhor amiga de anos tinha ouvido ainda da minha boca que eu era gay.

Eu tinha muito medo. Medo de ser alvo dos temidos papos de corredor, papos de almoço, papos de hangouts, telegram, whatsapp. Eu ia deixar de ser Josenildo, o QA, para ser “aquele viadinho” ou “aquele que anda rebolando”.

Mas ai descobri que, mesmo não assumido, eu já era tudo o que eu temia. Já comentavam sobre mim, e era humilhante. Fiquei triste. Por sorte, havia no meu ambiente outras minorias (mulheres, amo vocês ❤) que me deram muito apoio. Me vi em uma rede em que eu me sentia bem em ser eu mesmo. E aí esse texto começou a surgir.

De início, ele continha muito das minhas inseguranças, dos meus receios. Ele ficou meses nos rascunhos, sem eu ter coragem de publicar mesmo com constantes incentivos de pessoas maravilhosas. Com o tempo, eu me senti forte o suficiente para, enfim, me assumir como gay na minha empresa e tirar o texto junto do armário comigo.

Onde estão as pessoas?

A primeira questão que você observa quando entra numa empresa de TI é: onde estão os LGBTs? No meu país, é muito difícil de encontrar, mesmo em empresas enormes, gays, bi e lésbicas assumidos trabalhando com tecnologia. Mas eles estão lá, apenas escondidos por tantas camadas de convenções sociais e medo de que a capa de invisibilidade de Harry Potter falhe. Não posso culpá-los; o armário é um lugar seguro, eu estive lá (e às vezes faço visitas a ele, infelizmente). Até mesmo seguros de sua sexualidade, às vezes eles simplesmente ficam quietos, fazendo o seu trabalho sem serem notados. O problema é que vivemos em um mundo construído através da colaboração, e a sua perspectiva é importante demais para ser desperdiçada. É por isso que estou escrevendo isso também: para mim, para sair deste armário do trabalho.

A situação complica muito mais quando falamos sobre pessoas trans. Eles simplesmente não estão lá. Mas por que? Eu acredito que o ambiente sexista da tecnologia já assusta demais os trans que cogitam a carreira para tentar trabalhar nela, ou mesmo estudar. Na verdade, acredito que esta é uma questão muito maior que afeta não só a tecnologia, mas todas as áreas de trabalho formal para trans, e nem posso começar a imaginar o quão difícil é.

É brincadeira!

Os poucos que ousam se mostrar são escrutinados pelos pseudo-conservadores e "pessoas de bem". E nem sempre diretamente: é mais frequente que os julgamentos estejam escondidos em grupos virtuais, em mesas de bar, em almoços bem engraçados, em fofocas. As vezes o comentário pode ser sobre algo simples como o sapato que usa, a roupa que veste, o jeito que anda, mas que pode avançar para questionamentos se realmente, por ser o que é, você desempenha bem o seu trabalho. Pelo crime de ser você, a sentença é se tornar o alvo principal das risadas e fofocas da maioria. Poderia dizer que não deveríamos nos importar com o que os outros pensam, mas carregar esse peso nos ombros é um contraponto difícil.

Quando me assumi, recebi muito apoio, mas também um reflexo do momento atual: ignorância. Ignorância no sentido de literalmente não saber o que se está dizendo. Ora, quando você se assume gay e as pessoas dizem que “o fato de fazerem piadas com gays é porque elas estão de boas com as pessoas serem gays” demonstra no mínimo, bastante falta de conhecimento. Estas pessoas estão falhando em exercitar a empatia, pois não pensam em como é insuportável sofrer todas essas microagressões e se ver diminuído todos os dias. Essas pessoas não querem aprender e nem rever conceitos, o que dificulta bastante.

Nos meses seguintes a eu me assumir houve poucos avanços por parte dos meus colegas. os termos pejorativos continuam a aparecer, mesmo que involuntariamente, com os argumentos de que “é piada”, “é opinião” ou “o mundo é assim mesmo, não vai mudar”.

O mundo está mudando. Ele já mudou bastante nas últimas décadas. E é de uma extrema ignorância argumentar que o mundo não muda se, quando confrontado sobre a postura ruim que você vem tomando, você continua fazendo a mesma coisa e pior, arrumando desculpas para defender posturas machistas e homofóbicas.

Justificativas como "brincamos com todo mundo, faz parte de estar em sociedade" ou então "o mundo está chato", ou o clássico "é apenas piada" não são aceitáveis. Eu realmente gostaria de pensar que é exagero meu, mas quando qualquer atitude que demonstre fraqueza, sentimentalismo ou até preferência de estilo é considerada como "bichice" ou "viadagem", bem, então não, eu não posso acreditar que estou exagerando. Quando tudo o que eu sou — no meu caso, um homem gay — demonstra para os outros um demérito, uma piada, um nome diferente para diminuir os colegas, eu não tenho condições e nem vontade de acreditar que isso é fazer parte de uma sociedade, porque essa não é a sociedade da qual eu quero participar.

Diversidade para conquistar

As diferenças devem ser abraçadas e celebradas como uma coisa necessária em um ambiente tecnológico, porque o que trabalhamos, o que entregamos todos os dias ao mundo é a capacidade de se expressar seja por texto, áudio, vídeo, compartilhando o que amamos. Precisamos de diversidade para oferecer uma melhor experiência para os usuários para quem construímos produtos, porque eles são diversos. E, no entanto, não podemos revelar o que nos torna diversos em nossos próprios espaços de trabalho. Como posso indicar mais pessoas para ambientes onde eu mesmo não me sinta completamente seguro?

Eu sei que estou expondo um lado feio aqui, mas eu realmente adoro trabalhar com tecnologia e amo como ela pode melhorar e mudar o ambiente ao meu redor. E eu realmente quero que você se sinta instigado a trabalhar na área se quiser programação, lidar com pessoas, produtos e negócios.

Precisamos de diversidade. Precisamos de mais mulheres, gays, bi, lésbicas, trans e todas as variações de gênero que poderíamos ter. Precisamos de negros. Precisamos de pessoas com deficiência. Precisamos do diferente. Para encorajar os escondidos a sair de seus casulos, para apoiar os alvos da fofoca ou melhor: impor-se como o que é, como uma forma de diminuir esse tipo de reação nociva das pessoas que nos rodeiam.

Há iniciativas excelentes para incluir e capacitar as mulheres em TI me encorajaram a falar abertamente sobre mim e também a pensar sobre como incluir outras minorias — como nós — para trabalhar com a tecnologia. Eu procurei iniciativas para a galera LGBT em empresas de tecnologia e adorei os Gayglers, a comunidade de diversidade dentro do Google, e eu vi alguns ótimos eventos no meu país (eu realmente não esperava isso) como LGBT Tech e LGBTI Summit, organizado pela ThoughtWorks, e iniciativas legais como da Resultados Digitais. Animado por termos mais ambientes pra trocar ideias assim surgindo!

Se você tem algo para compartilhar, ensinar, defina isso como objetivo: ajudar outras pessoas a se preparar e tornar seu ambiente de trabalho mais acolhedor para elas. Quando você fortalece e se expressa, você se tornou um modelo para aqueles que virão e torna o ambiente onde você está seguro para que outros possam também passar pelo mesmo processo.

Em tempos tenebrosos que temos vivido, se esconder não é mais uma opção.

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